Luiz Gonzaga - O Rei do Baião









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"Meu nome é Luiz Gonzaga,
Não sei se sou fraco ou forte,
Só sei que Graças a Deus
Té pra nascê tive sorte,
Após nasci im Pernambuco,
Fanmoso Leão do Norte.

Nas terras do novo Exu,
Da Fazenda Caiçara,
Im novecentos e doze,
Viu o mundo minha cara.

Dia de Santa Luzia,
Purisso é qui sô Luiz,
No mês qui Cristo nasceu,
Purisso é que sô feliz."
.


(Luiz Gonzaga)
(Citado no Fascículo 11 da "Nova História da Música Popular Brasileira" - Editora Abril - Segunda Edição - 1977)



Luiz Gonzaga do Nascimento, o inesquecível Rei do Baião, nasceu no dia 13/12/1912 (Uma Sexta-Feira!) na Fazenda Caiçara (hoje Araripe), nas terras do Barão de Exu, a 3 léguas da pequena cidade de Exu-PE, e a 603 Km de Recife-PE. Ele foi o segundo dos 9 filhos de Januário José dos Santos (foto à direita) e Ana Batista de Jesus (Santana).

A curiosidade com relação ao sobrenome do filho ser diferente do sobrenome paterno é relatada no Fascículo 11 da "Nova História da Música Popular Brasileira" - Editora Abril - Segunda Edição - 1977:

No dia do Batizado, o Vigário perguntou:

- Nome do pai?

- Januário José dos Santos.

- Nome da mãe?

- Ana Batista de Jesus, mas pode me chamar de Santana.

- Data do nascimento?

- Dia de Santa Luzia, seu Vigário: 13 de Dezembro de 1912.

- E qual vai ser o nome da criança?

- Luiz. Homenagem à Santa do dia e porque na noite que nasceu correu uma zelação pelo céu (estrela de luz, cadente).

- Luiz de que?

- Os pais hesitam, não sabem o que responder.

- Bem, o pai é Januário; Luiz Januário tá bom?

O Vigário sorriu. Aquela gente não sabia nem que nome dar aos filhos. E resolveu sugerir:

- Já que é Luiz, que tal completar o nome do Santo? Fica Luiz Gonzaga. E como nasceu no mês do nascimento de Jesus Cristo, fica Luiz Gonzaga do Nascimento. Que tal?

- É... se Padrinho Vigário diz...


E ficou Luiz Gonzaga do Nascimento, afilhado de Dona Neném e Seu João Moreira de Alencar, gente rica do lugar...

Dividido entre a enxada e a sanfona, Luiz, com seus 7 anos de idade, observava seu pai Januário, que animava os bailes e consertava velhas sanfonas, o que despertava no menino a curiosidade pelo tradicional instrumento do Forró Nordestino.



Até que um dia, quando seu pai se encontrava na roça e sua mãe na beira do rio, Luiz pegou uma velha sanfona e começou a tocar. E, com poucas tentativas, já conseguia tirar melodias do acordeon. Até que sua mãe Santana chegou e lhe deu um "safanão", já que não queria um filho sanfoneiro que poderia se perder por aquele sertão afora...

Januário, porém, gostava das tendências musicais do filho Luiz e deixava que ele tocasse as sanfonas que vinham de longe para serem consertadas.

E logo chegou o dia em que Miguelzinho, dono de um terreiro muito concorrido, pediu licença para o menino Luiz tocar num baile. Luiz era irrequieto e cheio de iniciativa. Já havia tocado e feito grande sucesso por lá, sem que o Januário soubesse...

- Fale com Santana, ela é que resolve - disse Januário, orgulhoso e ao mesmo tempo temeroso pelo filho.

Santana, de início, negou, mas acabou deixando "na mão dos homens" o assunto... Conversa vai, conversa vem, Januário acabou consentindo:

- E se der sono nele por lá?

- Ora, a gente arma a rede e manda ele drumi - respondeu o dono do terreiro.

E naquela noite Luiz Gonzaga tocou com bastante entusiasmo, agradou em cheio. Mas as horas se passaram, os olhos "pesaram", a sanfona passou a ser um fardo e o menino foi para a rede... E, tão pequenino, o menino fez pipi enquanto dormia...

Luiz fugiu prá casa envergonhado... Mas a partir daquele dia já acompanhava o pai Januário nos forrós daquele Sertão...

Santana continuava discordando, mas... acabou se calando, depois de ver os 2$000 (Dois Mil Réis) que o menino ganhava revezando-se com o pai no acordeon!

Luiz Gonzaga crescia. Continuava ajudando o Januário na lida da roça e também na sanfona. Acompanhava também a mãe quando ela ia às feiras do Exu-PE, além de fazer pequenos serviços para os fazendeiros da região.

A família era protegida pelo Coronel Manuel Aires de Alencar, homem bondoso e respeitado até pelos seus inimigos. Luiz também era bem tratado pelos Aires de Alencar e suas primeiras escritas e leituras foram ensinamentos das filhas do Coronel.

Foi também o Coronel Aires de Alencar quem realizou o grande sonho de Luiz Gonzaga: sua primeira sanfona. A mesma custava 120$000 (Cento e Vinte Mil Réis) e o jovem sanfoneiro tinha só a metade desse dinheiro até então. A outra metade, o próprio Coronel adiantou, e tal quantia foi paga mais tarde com o fruto do seu trabalho já como sanfoneiro.

O primeiro dinheiro que Luiz ganhou com a nova sanfona foi no casamento de Seu Dezinho, no Ipueira, ocasião na qual ganhou 20$000 (vinte mil réis). Tal convite aumentou sua fama e ele começou a ser respeitado como sanfoneiro na região. De acordo com Mestre Duda, o mais respeitado acordeonista da região, "Esse menino é um monstro pra tocar". Luiz considerava esse o maior elogio que já havia recebido até então, além de já sentir que seu destino seria a carreira de Sanfoneiro!

De acordo com o próprio Luiz Gonzaga (Citado no Fascículo 11 da "Nova História da Música Popular Brasileira" - Editora Abril - Segunda Edição - 1977), " Eu gostava daquela vida. Das festas de São Bento, dos sambas da Chapada do Jirome ou do São João do Araripe, onde aprendi também a tocar Zabumba, Caixa e Pife (Pífaro). As festas do Bom Jesus no Exu, porém, eram o que mais me atraía. Também as da Padroeira do Granito, que se enchia de gente de todo canto. E havia as feiras, também. A do Baixio dos Doidos, a de Rancharia. Havia também os sambas no pé de serra, na Cajazeira do Faria, prá onde se ia a pé torando 12 léguas de ida e outras 12 de volta no compasso da 'pataca cruzado' das alpercatas de rabicho. Fui um moleque feliz. No sertão, todo moleque que não vive no domínio de senhores perversos é feliz. Tem suas compensações a pobreza. A liberdade ampla, a natureza imensa... Liberdade para os banhos de rio, prás caçadas no mato, prá soltar-se nas festas. "

Menino do sertão que era, Luiz Gonzaga também admirava os cangaceiros e tinha como ídolo o famosíssimo Virgulino Ferreira, o Lampião.

Naturalmente que Luiz Gonzaga dançava e namorava, quando "descansava" da sanfona. Em certa ocasião, pensou em se casar e comprou até as alianças; mas Santana acabou com o noivado do adolescente...

Mais tarde, quando Luiz havia entrado num grupo de Escoteiros em Exu-PE, iniciou um "namoro de olhares" com Nazinha (Nazarena), filha de Raimundo Delgado, um "importante" da cidade, da família Saraiva. E o interesse entre ambos existia... Luiz foi então falar com os pais da moça. Raimundo não estava; A mãe dela foi até simpática, no entanto, deu a entender que o pai jamais aprovaria o namoro. E alguns dias depois, um amigo contava a reação de Raimundo:

- Um diabo que não trabalha, não tem roça, não tem nada, só puxando aquele fole, como é que quer se casar? É isso, mora nas terras dos Aires e pensa que é Alencar. Os Aires podendo tirar o couro daquele negro. Dão liberdade e agora quer moça branca pra se casar...

"Cabra Macho" que era, no linguajar do Sertão Nordestino, Luiz Gonzaga comprou uma peixeira e foi tirar satisfações com Seu Raimundo, disposto a matá-lo. O pai de Nazinha conseguiu desconversar e acabou contando tudo prá Santana. O resultado? A maior surra que o "valentão" recebeu na vida... Santana açoitou-o até que ele perdeu as forças e caiu sentado num banco...

E, quando se recompôs, Luiz fugiu para o mato... Tinha agora na cabeça uma idéia fixa: alistar-se no Exército.

Era o ano de 1929 e Luiz Gonzaga tinha apenas 17 anos de idade. Dizendo que ia para uma festa, seguiu rumo ao Crato-CE, município vizinho de Juazeiro do Norte-CE, a terra do famoso Padre Cícero (o "Padinho Padim Ciço"). Crato-CE era uma cidade maior e mais próspera do que Exu-PE. E foi nesse lugar que Luiz vendeu sua sanfona por 80$000 (Oitenta Mil Réis) e pegou o trem rumo à Fortaleza-CE. E foi na Capital Cearense que Gonzaga se alistou voluntariamente no Exército, tendo inclusive mentido sobre sua idade, aumentando-a em 4 anos! Na época, mesmo que ele já tivesse completado 18 anos, ainda assim necessitaria da autorização dos pais e, em função disso, apresentou-se como se já tivesse 21 anos.

" Deixei a casa certo dia, prá uma festa no Crato; lá vendi minha Sanfona pru Oitenta Mi Rés, barato. Tá lá Raimundo Lulú prá lhi contá sê izato... "

A realidade era que Luiz queria deixar para sempre a sua Exu natal, em face da vergonha do "quase crime" que teria cometido, além da surra que havia tomado "bem grandinho", já com 17 anos...

O Recruta 122 havia entrado para o Exército num momento bastante violento da História do Brasil: a Revolução de 1930 estava para estourar nos Estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. E o Batalhão ao qual Luiz Gonzaga pertencia seguiu para esse Estado, onde aderiu aos revoltosos na cidade de Sousa-PB. Seguiram-se nos meses subseqüentes missões no Pará, Interior Cearense e Teresina-PI. Na Capital Piauiense, agora em defesa da revolução vitoriosa, Luiz se achava prestes a dar baixa, porém, tendo conseguido engaiamento, seguiu rumo à Região Sudeste: Rio de Janeiro-RJ, Belo Horizonte-MG, Juiz de Fora-MG.

"Bico de Aço" era então o novo apelido de Luiz Gonzaga, pois ele havia se tornado um Corneteiro bastante competente. Na ocasião teve também um "triste reencontro" com a Sanfona: Querendo tocar na Orquestra do quartel, o Maestro pediu:

- Gonzaga, dá um Mi Bemol aí.

- Mi Bemol? Que diabo é isso?

Sem saber Escala Musical, mesmo sendo o famoso e respeitado Sanfoneiro de Exu-PE, Luiz acabou ficando de fora da Orquestra. Em função disso, decidiu aprender Música. Encomendou uma Sanfona com Seu Carlos Alemão e começou a estudar com Domingos Ambrósio, O Dominguinhos, famoso sanfoneiro Mineiro, na época (apenas coincidência de nome com o renomado Acordeonista Dominguinhos (José Domingos de Moraes) de Garanhuns-PE). Com o Dominguinhos Mineiro, Luiz aprendeu não apenas o Mi Bemol mas também as Músicas que eram tocadas no Sul e Sudeste do Brasil: Polcas, Valsas e Tangos.

Luiz Gonzaga foi então transferido para Ouro Fino-MG, onde tocou sua Sanfona pela primeira vez em um clube, predominando no Repertório composições de Augusto Calheiros e Antenógenes Silva.

Os "bons tempos de caserna", no entanto, estavam chegando ao fim, já que uma nova lei proibia que Luiz Gonzaga ficasse mais de 10 anos engajado. Depois de uma ida a São Paulo-SP, em busca de uma sanfona de melhor qualidade, Luiz retornou à vida paisana. Era o ano de 1939 e jovem sanfoneiro não sabia bem o que fazer a partir de então...

" Cum um bucado de roupa, minha Sanfona e dinheiro, eu vim prá terra da luz que é o Rio de Janeiro-RJ; tive meu premero emprêgo, meu amigo, num se zangue; foi num canto de café, ali pertinho do mangue... "

Enquanto aguardava um navio para retornar ao Estado de Pernambuco, Luiz Gonzaga permaneceu no Batalhão de Guardas do Rio de Janeiro-RJ, quando veio o conselho de um outro soldado:

- Mas, rapaz! Com um Instrumento desses aí e na moita... Isso é dinheiro vivo, moço! Sei onde você com isso aí pode levar seus cinqüentões folgados!

Era no Mangue, na Rua Júlio do Carmo, esquina com a Carmo Neto. "Um fuzuê dos diabos", segundo o próprio Luiz Gonzaga...

Luiz tocava timidamente a Sanfona junto com o Guitarrista Xavier Pinheiro, nos bares do mangue, nas docas do porto, nas ruas... Enfim, onde houvesse alguém disposto a ouvir e jogar alguns tostões no pires.

Mais tarde, Luiz era também convidado para animar festinhas de subúrbio e nos cabarés da Lapa, após a meia-noite, quando encerrava seu "expediente" nas ruas da cidade. A sanfona vinha lhe garantindo a sobrevivência e abrindo novos caminhos...

E foi no Elite, famosa gafieira na Praça da República, que Luiz Gonzaga conheceu pela primeira vez uma personalidade do Rádio: o pianista cego Amirton Valim, ocasião na qual teve oportunidade de mostrar o que realmente mais gostava de tocar na Sanfona, que eram os seus Forrós e Chamegos da Região Nordeste. Até então, tal Repertório ainda era uma "exceção", já que Luiz tocava o que era exigido pelo público da época: Tangos, Fados, Valsas, Foxtrotes, etc.

Com esses ritmos estrangeiros, Luiz fazia as primeiras tentativas no Rádio, nos programas de calouros de Silvino Neto, Renato Murce e Ari Barroso, nos quais o fracasso era total. Eram inclusive bem famosas na época as "gongadas" de Ari Barroso e o quanto ele "ridicularizava" diversos calouros que tentavam a sorte em seu programa "Calouros em Desfile", na Rádio Tupi!



Foi nessa época que um grupo de Estudantes Cearenses, no Bar "Cidade Nova", no Mangue, sugeriu que Luiz Gonzaga apresentasse as Músicas que crescera ouvindo e tocando, as Músicas gostosas dos sanfoneiros do Sertão como seu pai Januário e Mestre Duda faziam! Da fato, Luiz Gonzaga tentava se adaptar à vida carioca e escondia suas Raízes Nordestinas, até então.

Luiz começou então a preparar as músicas "Pé de Serra". Dentre elas, um "Chorinho Urbano" que pouco tempo depois foi gravado com o título "Vira E Mexe" (Chamego) (Luiz Gonzaga), composto ainda em sua terra-natal. Com o aplauso entusiástico do público que lotava o bar (até mesmo quem passava na rua se aproximava curioso), resolveu tentar a sorte novamente com Ari Barroso, motivado também pela necessidade de arranjar dinheiro para ajudar sua família vitimada pela seca no Nordeste, conforme lhe havia dito o seu irmão José Januário, que o havia procurado em busca de ajuda.

- Bôas noite, seu Barroso.

- Rapaz, procure um imprego.

- Seu Ari, me dá licença pra eu tocar um chamego?

- Chamego?... O qui é isso no rol da coisa mundana?

- O chamego, Seu Barroso, é musga pernambucana.

- Como é o nome desse negócio?

- Vira e Mexe!

- Pois arrivira e mexe esse danado... a gente vê cada uma...


Luiz Gonzaga virou e mexeu com todo mundo!! Ari Barroso deu-lhe a "raríssima" Nota 5 (!!!) e um excelente Prêmio em dinheiro, além de que o público pediu bis, entusiasmado com a descoberta. Luiz também fazia uma descoberta:

"Havia ambiente para as Músicas do nosso Sertão, havia um filão a explorar, até então "virgem" quase, pois não passavam de contratações grosseiras aqueles programas sertanejos com emboladas e rancheiras..."

Luiz não havia deixado ainda o "pires" do Mangue, mas começou a se apresentar em programas de Rádio, como o do Zé do Norte, e acabou conhecendo também os Compositores que mais admirava: os já mencionados Augusto Calheiros e Antenógenes Silva. Esse, por sua vez, ao saber que Gonzaga tocava no Mangue, profetizou:

- Pois vá se aguentando lá, que seu dia chegará.

Até que Luiz Gonzaga, tocando no Mangue, foi procurado por Januário França, que queria um Sanfoneiro para acompanhar Genésio Arruda numa gravação. De início, Luiz hesitou ("Será que eu acerto?"), no entanto, saiu-se tão bem no acompanhamento que Ernesto Matos, Diretor Artístico da RCA, pediu-lhe para tocar alguma coisa em Solo de Acordeon.

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga acompanhando Genésio Arruda e Sua Gente em "Viagem do Genésio" (Genésio Arruda - Januário França), numa gravação oriunda do Lado A do 78 RPM, gravado pela RCA-Victor (34.741) em 05/03/1941 e lançado em Maio/1941. A primeira gravação de Luiz Gonzaga! Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

Luiz tocou duas Valsas e uma Rancheira, das quais Ernesto não só gostou, como também acabou "fazendo uma concessão" e pediu para Luiz:

- Agora meta lá esse negocinho do Norte que você disse que tem.

O "negocinho do Norte" era o Chamego "Vira e Mexe" (Luiz Gonzaga) e o Xóte "No Meu Pé de Serra" (Luis Gonzaga - Humberto Teixeira)!!!

- Amanhã pode vir gravar.

Era o dia 14 de Março de 1941. E o Luiz Gonzaga gravou seus dois primeiros Discos como solista de Acordeon. No primeiro (Victor - 34.744), a Mazurca "Véspera de São João" (Luiz Gonzaga - Francisco Reis) no Lado A, e a Valsa "Numa Serenata" (Luiz Gonzaga), no Lado B. E, no segundo Disco (Victor - 34.748), a Valsa "Saudades De São João D' El Rey" (Simão Jandi "Turquinho") e o Chamego "Vira E Mexe" (Luiz Gonzaga).

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga interpretando o Chamego "Vira e Mexe" (Luiz Gonzaga), numa gravação oriunda do Lado B do 78 RPM, gravado pela RCA-Victor (34748) em 14/03/1941 e lançado em Junho/1941. Acompanhamento a cargo de Poly (Ângelo Apolônio) no Cavaquinho e Garoto (Aníbal Augusto Sardinha) no Violão. Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

Os 3 Discos 78 RPM que vieram a seguir mantiveram a mesma proporção de Música Nordestina. Foram eles: Victor - 34.768: tendo no Lado A a Valsa "Nós Queremos Uma Valsa (Antônio Nássara - Eratóstenes Frazão) e no Lado B o Choro "Arrancando Caroá" (Luiz Gonzaga); Victor - 34.778: tendo no Lado A a Valsa "Farolito" (Agustin Lara) e no Lado B a Polca "Segura A Polca" (Henrique Xavier Pinheiro); Victor - 34.929: tendo no Lado A a Valsa "Saudades de Ouro Preto" (Tradicional) e no Lado B o Chamego "Pé De Serra" (Luiz Gonzaga).

E, durante 5 anos, Luiz Gonzaga gravou diversos Discos 78 RPM com cerca de 70 Músicas, porém apenas 10 é que eram Chamegos. A maioria delas eram Valsas, Polcas, Mazurcas e Chorinhos, várias delas de autoria do próprio Luiz. Também constaram no período Composições de Ernesto Nazareth, Miguel Lima, Mário Rossi, Peterpan, Assis Valente e Antenógenes Silva, apenas para citar alguns!

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga interpretando o Chorinho "Apanhei-Te Cavaquinho" (Ernesto Nazareth), numa gravação oriunda do Lado A do 78 RPM, gravado pela RCA-Victor (80-0060) em 11/01/1943 e lançado em Março/1943. Essa gravação faz parte do início da carreira do Gonzagão com excelentes Solos de Sanfona e, ao que consta, mostrando que Luiz Gonzaga foi o pioneiro em interpretação do Ritmo de Chorinho nesse Tradicional Instrumento de Sopro Mecânico!! Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

Quero aqui destacar o CD de Luiz Gonzaga "Êta Cabra Danado de Bom!" (RVCD-029) lançado pela excelente Gravadora Revivendo e que resgata uma excelente amostra das gravações instrumentais do Rei do Baião entre 1941 a 1946, brindando o Apreciador com belíssimas interpretações de "Pé de Serra" (Luiz Gonzaga), "Apanhei-Te Cavaquinho" (Ernesto Nazareth), "O Xamego da Guiomar" (Luiz Gonzaga), "Saudades de Matão" (Antenógenes Silva - Jorge Gallati - Raul Torres), "Saudades de Ouro Preto" (Adaptação: Luiz Gonzaga), "Última Inspiração" (Peterpan) e "Seu Januário" (Luiz Gonzaga), dentre outras, além do Chamego "Vira e Mexe" (Luiz Gonzaga) que é a primeira faixa do CD! São 21 faixas que nos mostram o talento desse grande Sanfoneiro no início de sua carreira!!! Sem dúvida, um excelente trabalho da Gravadora Revivendo que não pode faltar na coleção do Apreciador, lembrando também que o encarte desse e dos CD's da Revivendo, de um modo geral, são verdadeiros "livros" riquíssimos em informações!!!

No entanto, os Produtores da Victor "ainda não deixavam o Sanfoneiro cantar"... Até então todas as gravações eram puramente instrumentais!

Luiz Gonzaga prosseguiu fazendo carreira no Rádio, na Cidade Maravilhosa. Em 1941, conheceu César de Alencar, quando ele era o locutor do programa "Alma do Sertão" sob o comando de Renato Mource, na Rádio Clube do Brasil. Nesse programa, Gonzagão havia substituído seu ídolo Antenógenes Silva.

Foi nessa época que Luiz conheceu o inesquecível Violonista Dino Sete Cordas, que tinha a mania de apelidar todo mundo. Ao ver a "cara redonda" de Luiz Gonzaga, Dino imediatamente o chamou de "Lua", apelido que Paulo Gracindo e César de Alencar se encarregaram de divulgar!

Luiz participava de diversos programas de Rádio quase todos os dias da semana e além disso, também tocava no Teatro com Genésio Arruda e, nas noites de Domingo, animava os "dancings" do centro da cidade.

Com 400$000 (Quatrocentos Mil Réis) todo fim do mês no contrato da Rádio Clube do Brasil, além dos 20$000 de Genésio Arruda todos os dias e, com surpreendente regularidade, cerca de 300$000 da venda das gravações que já alcançavem sucesso, Luiz deixava de vez o Mangue e também a dupla que havia formado com Xavier Pinheiro. No entanto, não esqueceu o velho amigo que inclusive havia abrigado Luiz Gonzaga em sua própria casa: Gonzagão gravou algumas Músicas do Xavier e divulgou as mesmas para além dos bares frequentados por marinheiros e prostitutas.

Pouco tempo depois, veio um novo contrato, dessa vez no valor de 600$000, na Rádio Tamoio, além de ter recebido o Título de "Maior Sanfoneiro do Nordeste"!! No entanto, continuava a "severa proibição" de cantar... "Talvez por não encontrar a verdadeira expressão do meu pendor artístico naqueles solos de Sanfona, que subitamente me pareceram desenxabidos, inautênticos. Eu desejava fugir do Ramerrão, das Valsas Rancheiras (...) Eu havia feito outras experiências fora do Rádio, e os resultados foram animadores. Haviam-me aplaudido tocando Choros, Chamegos, Forrós e Calangos...."

Despedido da Rádio Tamoio em 1944, Luiz foi contratado por Cr$ 1.600,00 (Mil e Seiscentos Cruzeiros), pela Rádio Nacional.

Nessa época, o principal parceiro musical de Gonzagão era Miguel Lima, excelente Compositor, também parceiro de Waldir Azevedo no célebre Choro "Pedacinhos Do Céu". Miguel fornecia belíssimas letras para as Músicas compostas por Luiz e incentivava-o a gravá-las, no entanto, a RCA teimava em não permitir que ele cantasse!!

Gonzagão "blefou", dizendo ter sido convidado para gravar cantando na Odeon, onde usaria um pseudônimo... Foi então que, diante de tal "ameaça", que o Diretor Artístico Vitório Lattari acabou cedendo e foi gravado em 1945 o Disco 78 RPM Victor - N° 80-0281, tendo no Lado A a Mazurca "Dança Mariquinha" (Luiz Gonzaga - Miguel Lima) e no Lado B a Polca "Impertinente" (Luiz Gonzaga). O primeiro Disco cantado gravado por Luiz Gonzaga, após uma vintena de Discos Instrumentais!

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga tocando e cantando a Mazurca "Dança Mariquinha" (Luiz Gonzaga - Miguel Lima), numa gravação oriunda do Lado A do 78 RPM, gravado pela RCA-Victor (80.0281) em 11/04/1945 e lançado em Maio/1941. A primeira Música que Gonzagão gravou cantando! Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

E, no fim do mês, ao receber o dinheiro das gravações, a agradável surpresa de ter recebido Cr$ 50,00 a mais, mostrando que o Cantador podia vender ainda mais do que o simples Sanfoneiro!! "É... tem gente prá tudo..." foi o comentário de Vitório Lattari.

Mas, nas palavras de Luiz Gonzaga, "Miguel Lima, apesar de ótimo Compositor e de bom companheiro, não dava valor àquelas minhas idéias de querer cantar Músicas do Norte, de ritmo ainda desconhecido no restante do Brasil..."

Gonzagão queria um parceiro nordestino que estivesse disposto a defender essa "bandeira". Tentou um contato com Lauro Maia, Compositor Cearense com algumas Composições gravadas pelo Grupo "Quatro Ases E Um Coringa", dentre elas, "Eu Vi Um Leão" (Lauro Maia), "A Ribeira Do Caxia" (Lauro Maia), "Bate Com O Pé No Chão" (Lauro Maia), "Cachimbo de Barro" (Lauro Maia), "Pecador" (Humberto Teixeira - Lauro Maia) e "Trem de Ferro" (Lauro Maia), dentre outras). Lauro, por sua vez, com muita "modéstia", não quis participar de tal iniciativa, mas indicou-lhe o cunhado que, a seu ver, poderia ajudar Luiz Gonzaga nessa empreitada: seu nome era Humberto Teixeira!

Um dos principais parceiros de Luiz, Humberto Teixeira (foto à esquerda) nasceu em Iguatu-CE no dia 05/01/1915 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ no dia 03/10/1979. Aprendeu a tocar Flauta e Bandolim e fez o Curso Secundário em Fortaleza-CE, no Liceu do Ceará, ocasião na qual era Flautista na Orquestra Iracema, regida pelo Maestro Antônio Moreira.

Formado em Direito, Humberto Teixeira também iniciava o exercício da Profissão em seu escritório na Avenida Calógeras, onde, numa tarde de Agosto de 1945, recebeu a visita de Luiz. Após um longo bate-papo que se prolongou noite adentro, surgiram os primeiros compassos de "Pé De Serra" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) (a qual já havia sido gravada na forma instrumental) e também a "sanfonização" de uma linda Música que, após mais algumas modificações, veio a se transformar no maior sucesso e numa das Músicas mais representativas desse nosso Brasil: o célebre Baião "Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) (a Música cujo trecho o Apreciador ouve ao acessar essa página).

A título de curiosidade, Asa Branca é uma espécie de pombinha-rola, também chamada ribaçã, que se reúne nos meses de Março e Abril para a desova e que é lamentavelmente abatida em grandes quantidades, para ser comida com farinha, durante a seca do Sertão Nordestino. Segundo a Tradição Popular, a Asa Branca é a última que abandona o Sertão durante o período da seca e, quando isso acontece, o que vem logo após é o êxodo dos retirantes, sem esperança e com a certeza de que chuva não mais virá naquele ano...

A primeira gravação de "Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) foi no Lado B do Disco 78 RPM gravado em 03/03/1947 e lançado em Maio/1947 pela RCA-Victor (80.0510). No Lado A do mesmo disco, a Marcha "Vou Prá Roça" (Luiz Gonzaga - Zé Ferreira).

Clique aqui e ouça "Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) interpretada pelo Gonzagão, em sua primeira gravação, no Disco 78 RPM - 80.0510 - Lado B - Gravadora RCA Victor - Gravado em 03/03/1947 e lançado em Maio/1947 - do Acervo de José Ramos Tinhorão - num excelente Arquivo Musical pertencente ao IMS - Instituto Moreira Salles, excelente site que se preocupa com a Preservação de Inestimáveis Acervos Brasileiros em termos de Música, Fotografia, Artes Plásticas e Biblioteca, o qual convido o Apreciador a visitar! Repare também que essa raríssima gravação é bem diferente da gravação mais conhecida, que foi feita posteriormente, em 1952, pelo Luiz Gonzaga!

Gonzagão chegou a gravar uma nova versão da "Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) (a mais conhecida nas diversas coletâneas de LP's e CD's) no Lado B do Disco 78 RPM gravado em 06/03/1952 e lançado em Maio/1952 pela RCA-Victor (80.0510) (Curiosamente, o mesmo número do Disco de 1947!!). E, no Lado A do mesmo disco, o Baião "Paraíba" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira).

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira chegavam à conclusão de que, dentre os diversos Ritmos Nordestinos que conheciam, o Baião era o mais "estilizável" e "urbanizável", sendo, portanto, o mais apropriado, pelas suas características e tipicidade, para a campanha nacional que os dois resolveram deflagrar a partir daquel encontro.

Nascia a célebre composição intitulada "Baião" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira):

Eu vou mostrá prá vocês
Como se dança o Baião
E quem quiser aprender
É favor prestar atenção...


Na concepção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, o Baião (também conhecido como "Rojão") substituiu a Viola, o Pandeiro, o Botijão e a Rabeca pela Sanfona, Triângulo e Zabumba, formação típica do Autêntico Forró Pé-De-Serra, resultando em melodia singela, de "sabor Gregoriano", com versos simples, além de serem impregnados de modismos tipicamente nordestinos!

Clique aqui e ouça "Baião" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) interpretada pelo Luiz Gonzaga, numa gravação oriunda do Lado B do Disco 78 RPM - 80-0605 - Gravado na RCA Victor em 07/06/1949 e lançado em Outubro/1949. Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar! E, no Lado A do mesmo Disco, foi gravado o Baião "Juazeiro" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira).

Obs.: A primeira gravação de "Baião" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) foi feita pelo Grupo "Quatro Ases E Um Coringa", no Lado B do Disco 78 RPM (12.724) gravado pela Odeon em 22/05/1946 e lançado em Outubro/1946, antes mesmo da gravação feita pelo próprio Luiz Gonzaga e antes também da primeira gravação de "Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira).

De acordo com a informação no Fascículo 11 da "Nova História da Música Popular Brasileira" (Editora Abril - Segunda Edição - 1977), "Essa Música foi a primeira da Dupla [Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira] a unir a cadência da Viola do Cantador Nordestino à Toada do Cego de feira, criando o Baião. Foi tão grande seu sucesso, que Luiz Gonzaga esperou três anos (a RCA estava montando a fábrica no bairro paulistano do Jaguaré e Lua era fiel à gravadora) para ele próprio gravar a Música na RCA-Victor. 'Baião', assim como 'Pelo Telefone' [(Donga - Mauro de Almeida)], representam dois marcos dos mais importantes na MPB. Daí por diante, o Baião tomaria conta do Brasil e, até algum tempo antes do surgimento da Bossa Nova, seria o gênero mais prestigiado por Compositores e Intérpretes."

Clique aqui e ouça a primeira gravação de "Baião" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) interpretada pelos "Quatro Ases E Um Coringa", no Lado B do Disco 78 RPM - 12.724 - Lado B - Gravado pela RCA Victor - no dia 22/05/1946 e lançado em Outubro/1946 - do Acervo de Humberto Franceschi - num excelente Arquivo Musical pertencente ao IMS - Instituto Moreira Salles, excelente site que se preocupa com a Preservação de Inestimáveis Acervos Brasileiros em termos de Música, Fotografia, Artes Plásticas e Biblioteca, o qual convido o Apreciador a visitar!

O Samba-Canção e alguns ritmos importados, que eram a tônica da MPB na época, davam lugar ao Baião que passava a "revolucionar" nossa Boa Música Brasileira.

"Baião" (Luis Gonzaga - Humberto Teixeira), "Paraíba" (Luis Gonzaga - Humberto Teixeira), Juazeiro (Luis Gonzaga - Humberto Teixeira), "Dezessete Légua e Meia" (Humberto Teixeira - Carlos Barroso), "Baião da Garoa" (Luis Gonzaga - Hervé Cordovil), "ABC do Sertão" (Zé Dantas - Luis Gonzaga), "Paulo Afonso" (Luis Gonzaga - Zé Dantas), "A Feira De Caruaru" (Onildo Almeida) e "Asa Branca" (Luis Gonzaga - Humberto Teixeira) são apenas alguns dos inúmeros sucessos nesse ritmo, gravados pelo inesquecível Rei do Baião!!

O Ritmo do Baião também ganhou a adesão de Compositores do "Sul" tais como Hervê Cordovil e Waldir Azevedo. Luiz Gonzaga celebrizou-se como o Rei do Baião, ritmo esse que "integrou uma verdadeira corte", já que, além do Rei Luiz, celebrizaram-se também a Rainha do Baião Carmélia Alves, o Príncipe do Baião Luiz Vieira e a Princesa do Baião Claudette Soares!!

A parceria de Luiz com Humberto Teixeira durou até meados de 1950, ocasião na qual o Compositor Cearense foi eleito Deputado Federal e passou a lutar pelo Direito Autoral, tendo conseguido a aprovação pelo Congresso da Lei Humberto Teixeira, a qual possibilitou as excursões das célebres "caravanas" musicais por todo o mundo.

Conforme citado na página 174 do livro de Ayrton Mugnaini Jr. "Enciclopédia das Músicas Sertanejas", Humberto Teixeira "...em 1958 conseguiu que o Congresso Nacional aprovasse a Lei Humberto Teixeira, para formar e financiar (em convênio entre o MEC e a UBC - União Brasileira dos Compositores) as Caravanas Oficiais da Música Popular Brasileira, destinadas a divulgar anualmente nossa Música no exterior, com grandes Músicos e Cantores como o Clarinetista Abel Ferreira, o Sanfoneiro Sivuca e o Maestro Guio de Moraes; tais caravanas, dirigidas por Humberto Teixeira, duraram ininterruptamente até 1964. Três anos depois, Humberto iniciou campanha por melhor distribuição de direitos autorais, e em 1971 foi eleito Vice-Diretor da UBC. Além disso, Humberto foi pioneiro ao sugerir uma lei, aprovada em 1958, visando controlar e restringir a execução da Música estrangeira no Rádio e na TV."

Em 1949, por outro lado, Luiz havia conhecido em Recife-PE o Estudante de Medicina José de Sousa Dantas Filho, que era seu admirador, sabia de cor a quase totalidade dos seus sucessos e era bom conhecedor dos costumes de Sertão!

" Cum esse doutô, Zé Danta,
Eu puz o Brasil im guerra,
Fiz gente cá da cidade
Vortá a morá na serra,
Coloquemo os Brasileiro
Cada quá im sua terra... "


Iniciou-se a parceria de Luiz Gonzaga com Zé Dantas. Esse, por sua vez, havia exigido apenas que o seu nome não aparecesse, pois temia que a família não gostasse...

Tal pedido, no entanto, não foi atendido... E, no ano seguinte, Zé Dantas trocou o Recife-PE pelo Rio de Janeiro-RJ, onde fez seu estágio em Obstetrícia e onde se efetivou no exercício da Medicina. A família, por outro lado, não se zangou, pois sabia que ele continuava sendo um moço sério!

Com o novo parceiro, Luiz Gonzaga cantou o Nordeste em seus aspectos mais curiosos ("ABC do Sertão" (Zé Dantas - Luiz Gonzaga)), além do angustiante problema da seca no Sertão ("Vozes da Seca" (Luis Gonzaga - Zé Dantas)), bem como as perspectivas de progresso ("Paulo Afonso" (Luis Gonzaga - Zé Dantas)) e o trabalho do homem do Sertão ("Algodão" (Luis Gonzaga - Zé Dantas)). E, como bom Médico, Zé Dantas também nos dá uma "Aula de Medicina e Biologia" com o aspecto tão típico da adolescência feminina em "O Xote das Meninas" (Luis Gonzaga - Zé Dantas) ("Ela só quer, só pensa em namorar...").

De um modo geral, belíssimas Composições de Luiz Gonzaga em parceria com Zé Dantas eram voltadas para os problemas sociais nordestinos (e também do restante do Brasil, de um modo geral) e, dessa forma, vêm sendo consideradas como precursoras do que chamamos de "Música de Protesto". Ou, nas palavras do próprio Gonzagão: "Um protesto lírico..."

Zé Dantas faleceu prematuramente em 1962 com apenas 41 anos de idade, interrompendo bruscamente a belíssima parceria. Nessa época, o Baião e a Música Caipira já não faziam mais o mesmo sucesso nas grandes cidades, mas ainda permaneciam firmes no Interior do Brasil!



Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga interpretando "A Volta Da Asa Branca" (Ze Dantas - Luiz Gonzaga), numa gravação oriunda do Lado B do 78 RPM, gravado pela RCA-Victor (80.0699) em 11/08/1950 e lançado em Outubro/1950. Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

Em 1948, Luiz se casou com a Professora pernambucana Helena Neves Cavalcanti, que era contadora num Laboratório no Rio de Janeiro-RJ. Eles haviam se conhecido nos bastidores da Rádio Nacional, quando a moça tinha ido procurá-lo para saber se havia recebido as cartas que lhe havia enviado. Luiz alegou que "não tinha tempo" de responder correspondências. Helena então perguntou "Por que não contrata uma secretária para tal serviço?", ao que Gonzagão respondeu prontamente: "Pois está contratada!". E o casamento foi celebrado no dia 16/06/1948, no mesmo ano em que se conheceram.

Luiz Gonzaga e Helena adotaram uma menina que foi batizada com o nome Rosa do Nascimento, a Rosinha.

Antes de conhecer Helena, Luiz Gonzaga teve diversos "amores", incluindo o "caso" mais conhecido que foi com a corista carioca Odaléia Guedes, em meados de 1945. Tendo-a conhecido já grávida, Luiz assumiu e registrou como seu filho o menino Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior - o excelente Intérprete e Compositor Gonzaguinha, de bastante importância em nossa Boa Música Brasileira!! Gonzaguinha, no entanto, "passou para o Andar de Cima", antes de completar os 46 anos, num acidente de carro no Interior do Estado do Paraná no dia 30/04/1991 - menos de dois anos depois do falecimento do Gonzagão...

E sobre seu filho adotivo Gonzaguinha, Luiz Gonzaga comentava que "Eu gosto muito da linha melódica das canções de Luizinho. Ele tem uma harmonização muito bonita Mas eu fico por aí porque não entendo bem as letras que ele escreve. Só sei dizer que como filho ele é espetacular!"




Clique aqui, veja e ouça "A Vida do Viajante" (Luiz Gonzaga - Hervê Cordovil), interpretada por Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha, num preciosíssimo Arquivo Musical e de imagem pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

Na foto abaixo, Rosinha, Gonzaguinha, Gonzagão e Dona Helena Gonzaga:



A união de Helena e Luiz Gonzaga durou até próximo ao falecimento do Rei do Baião. Consta no entanto, que o casal se separou e Luiz passou a residir com Edeuzuita em Recife-PE.

Foi em 1953, época da parceria com Zé Dantas, que Luiz Gonzaga passou a utilizar o gibão de couro, a sandália e a cartucheira, e colocou na cabeça o tradicional chapéu de couro (inspirado no cangaceiro Virgulino Ferreira, o famosíssimo Lampião), adotando o visual conhecidíssimo até seu falecimento em 1989, tendo afirmado mais ainda sua autêntica Nordestinidade, com a indumentária característica do Vaqueiro Nordestino. Aliada a essa imagem, a presença de sua inconfundível Sanfona Branca - A Sanfona do Povo!

No ano de 1961, Luiz Gonzaga foi iniciado na Maçonaria. E, alguns anos depois prestou à mesma uma belíssima homenagem com sua Composição "Acácia Amarela" (Luiz Gonzaga - Orlando Silveira), que é a 11ª faixa do LP "Eterno Cantador" (foto da capa à direita) gravado pela RCA-Victor (103.0525) em 1982 e que, "para nossa felicidade", foi remasterizado em CD!

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga interpretando "Acácia Amarela" (Luiz Gonzaga - Orlando Silveira), numa gravação oriunda do LP "Eterno Cantador", lançado pela RCA-Victor (103.0525) em 1982. Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

Em 1964, Gonzagão gravou o que ele considerava como o seu melhor trabalho: "A Triste Partida" (Patativa do Assaré), no LP também intitulado "A Triste Partida" lançado no ano seguinte pela RCA-Victor (BBL 1320). O sucesso é total principalmente junto ao nordestino que vive no Sul. "A Triste Partida" foi a primeira Composição de Patativa do Assaré que foi gravada em Disco. E, na belíssima voz de Luiz Gonzaga, essa belíssima Música narra a triste saga do Nordestino que, sem nenhuma esperança com a seca que castiga o Sertão e a chuva que nunca chega, se vê obrigado a vender barato o pouquinho que possui, botar a família num caminhão, rumo a São Paulo-SP, onde também "vive como escravo", sofrendo desprezo, devendo ao patrão... É muito difícil ouvir atentamente os quase 9 minutos desse verdadeiro poema cantado, na voz do Gonzagão, sem que nos venham as lágrimas nos olhos!

"O assunto maís sério que já gravei..." de acordo com o próprio Luiz Gonzaga!

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga interpretando "A Triste Partida" (Patativa do Assaré), numa gravação oriunda do LP "A Triste Partida", lançado pela RCA-Victor (BBL 1320) em 1965. Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!



Apesar de ter demorado vários anos para retornar pela primeira vez à sua terra-natal, Luiz Gonzaga sempre foi apegado às coisas do seu tão querido "pé de serra". Não perdia jamais a oportunidade de visitar Exu-PE, rever amigos e também seu pai Januário que, "mesmo com a voz fraca ainda era bastante respeitado..."

Numa brilhante carreira que durou 7 décadas (considerando os primeiros toques de Sanfona aos 7 anos de idade), Luiz Gonzaga testemunhou diversas mudanças em nossa Boa Música Brasileira, inclusive com a própria História do Baião, que, após a "grande fase" que viveu, começou a declinar em meados da década de 1950.

Conforme já foi mencionado, o Baião e a Música Sertaneja/Regional de um modo geral já não vinham mais fazendo o mesmo sucesso nas grandes cidades, no entanto, ainda permaneciam firmes no Interior do Brasil, principalmente na Região Nordeste.

A "nova geração" nos grandes centros urbanos quase nada sabia sobre o importantíssimo trabalho de Luiz Gonzaga. Segundo o próprio Gonzagão, " Uma vez eu procurei um disc-jockey conhecido e pedi prá ele tocar uma Música minha no seu programa. E sabe o que ele me respondeu? ' Gonzaga: você tem que compreender que agora é a juventude. Você já era. Isso já passou. Me desculpe a franqueza. ' Aí eu 'botei a minha viola no saco' e fui me esconder no meu pé de serra, pensando mesmo que já tinha acabado. "

"Paradoxalmente" foi a própria juventude que acabou sendo a principal responsável relo retorno de Luiz Gonzaga e pelo reconhecimento de sua importância para a História da Música Popular Brasileira!

Um "boato" espalhado pelo Carlos Imperial (que também observava algumas semelhanças na Música dos Beatles com a Música Nordestina.) dizia que "Os Beatles iriam gravar 'Asa Branca' (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)", notícia essa que "estourou como uma bomba" e, em função disso, mesmo não tendo sido verdadeira, foi o suficiente para que Luiz Gonzaga voltasse às manchetes. O Rei do Baião começou a ser novamente convidado a participar de diversos programas de TV. E, por muito tempo Luiz sempre mencionava nas entrevistas o interesse dos "cabeludos de Liverpool" por essa Música...

Estávamos em meados da década de 1960 e uma nova geração de Compositores da MPB (principalmente os Tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Capinam) diziam haver encontrado uma das fontes de inspiração justamente na Música de Luiz Gonzaga! "Eu nem conhecia Gilberto Gil, Caetano, eu não conhecia a moçada... De repente, começaram a dizer que eu era o 'pai da criança'. A juventude sempre sabe o que quer; olha mais na frente. Sempre foi assim. Na política, nas artes, em tudo."

Em 1971, Gonzagão se apresentou em Guarapari-ES, tendo feito sucesso entre os "hippies" da época.

E, em Março de 1972, Luiz Gonzaga se apresentou no espetáculo "Luiz Gonzaga Volta Para Curtir" no Teatro Tereza Raquel no Rio de Janeiro-RJ, sob a direção de Jorge Salomão e Capinam, tendo sido a primeira vez na qual o Rei do Baião teve contato com uma platéia formada somente por gente jovem, e que o aplaudiu entusiasticamente!

Vieram também novos shows com platéias formadas por Estudantes Universitários!

Nessa época, o Rei do Baião também retornava às paradas de sucesso, com "Ovo de Codorna" (Severino Ramos) e novas gravações de suas Composições foram gravadas com "nova roupagem", como foi o caso de "Dezessete Légua e Meia" (Humberto Teixeira - Carlos Barroso), que foi regravada pelo Gilberto Gil em 1969, além de "Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) e "A Volta Da Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Zé Dantas), regravadas pelo Caetano Veloso em 1971 e 1973, respectivamente. E também a gravação de "Assum Preto" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) feita pela Gal Costa em 1971!

Em 1975, Benito Di Paula homenageou o Rei do Baião gravando "Sanfona Branca" (Benito di Paula) no LP COLP 12030 gravado na Copacabana. E, 1977, Luiz Gonzaga retribuiu a homenagem, gravando "Chapéu de Couro e Gratidão" (Luiz Gonzaga - Aguinaldo Batista) no LP "Chá Cutuba" (107.0265), lançado pela RCA-Camden.

Clique aqui e ouça Benito di Paula interpretando "Sanfona Branca" (Benito di Paula), num Arquivo Musical pertencente ao Youtube.

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga interpretando "Chapéu de Couro e Gratidão" (Luiz Gonzaga - Aguinaldo Batista), numa gravação oriunda do LP, "Chá Cutuba" (107.0265), lançado pela RCA-Camden em 1977. Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

No 06/06/1989, o Rei do Baião subiu ao palco pela última vez, com o auxílio de uma cadeira de rodas. Foi no Teatro Guararapes no Centro de Convenções de Recife-PE, ao lado de Dominguinhos, Gonzaguinha, Alceu Valença e vários outros parceiros e amigos. "Desobedecendo às ordens médicas", Gonzagão levantou-se apoiado no microfone e, com sua voz forte e anasalada, apesar de um pouco trêmula, fez um pequeno e inesquecível discurso:

"Quero ser lembrado como o Sanfoneiro que amou e cantou muito o seu povo, o Sertão, que cantou as aves, os animais, os Padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor..."

Menos de dois meses depois, no dia 02/08/1989, vítima de osteoporose, O inesquecível Rei do Baião Luiz Lua Gonzaga exalou seu último suspiro, às 05:15 da manhã, no Hospital Santa Joana, em Recife-PE, onde estava internado há 42 dias. Seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa do Estado e o Governo de Pernambuco decretou luto oficial por três dias.

E, no dia 13/12/1989 (quando o Rei do Baião teria comemorado seu 77° Aniversário), Gonzaguinha, Fagner, Elba Ramalho, Domiguinhos, Joãozinho do Exu e Joquinha Gonzaga cantaram à meia noite os parabéns para Luiz Gonzaga, num Show realizado em Exu-PE. E, no mesmo dia pela manhã, foi inaugurado em Exu-PE por Domiguinhos e Gonzaguinha o Museu do Gonzagão, projeto que o próprio Luiz Gonzaga já vinha idealizando vários anos antes, com a assessoria de sua Esposa Helena.

" Nada mais justo do que instalar o Museu na minha terra. Na verdade, eu nunca saí de lá, sempre estive ligado sentimentalmente ao meu pé de serra. Com a instalação do Museu - tudo muito modesto - não pretendemos, depois da minha morte, vender nada. Simplesmente manter a volta do filho à terra. Uma questão de coerência, pois sempre dei muito valor ao homem que não esquece da terra. "

Clique aqui e ouça Luiz Gonzaga interpretando "Aquarela Nordestina" (Rosil Cavalcanti), numa gravação oriunda de seu último LP, também intitulado "Aquarela Nordestina" (613.007), lançado pela Copacabana em 1989. Arquivo Musical pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!

Clique aqui, veja e ouça a Notícia que antecedeu o famosíssimo "Boa Noite" do Jornal Nacional da Rede Globo que anunciou o falecimento de Luiz Gonzaga, no dia 02/08/1989, com entrevistas, depoimento de Sivuca e imagens de seu último show, num preciosíssimo Arquivo pertencente ao excelente site Luiz Lua Gonzaga, o qual convido o Apreciador a visitar!



Clique aqui e conheça o excelente site Luiz Lua Gonzaga, desenvolvido por Paulo Vanderley ("Cabra do Sítio") com trabalho gráfico de Walmar Pessoa ("Desenhadô"), com bastante riqueza de informações sobre a Vida de Luiz Gonzaga, bem como Discografia, Fotos e Vídeos, num maravilhoso tributo ao Rei do Baião!!



Obs.: As informações contidas no texto dessa página são originárias principalmente do Fascículo 11 da "Nova História da Música Popular Brasileira" - Editora Abril - Segunda Edição - 1977 (foto da capa à direita), do livro de Ayrton Mugnaini Jr. "Enciclopédia das Músicas Sertanejas" - Editora Letras & Letras - 2001, além dos Sites da Gravadora Revivendo, Luiz Lua Gonzaga, Gonzagão Online, Dicionário Ricardo Cravo Albin de Música Popular Brasileira, MPBNet, Rei do Baião.Com.Br, Fundação Joaquim Nabuco, Instituto Moreira Salles e IMMUB - Instituto Memória Musical Brasileira.

Ver também mais detalhes e links na página Para saber mais... onde constam as Referências Bibliográficas sem as quais a elaboração desse site teria sido impossível.




Essa "Viagem de Trem" pelo Interior Musical do Brasil não pára por aqui: Clique aqui e pegue o "trem", que ele agora irá para o Sul da Bahia: Vitória da Conquista-BA, no Sertão onde nasceu e onde gosta de viver esse excelente Cantador, de uma Formação Musical sui-generis, com notável influência de diversos Estilos Eruditos e Populares: Viaje e sinta essa emoção "Do Auto da Catingueira", nessa página especial dedicada ao Elomar!!!


Ou então, se você preferir outro compositor ou intérprete, clique aqui e "pegue outro trem para outra estação", na Página-Índice dos Compositores e Intérpretes.
















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